Dança, partilha, Aceita a Tua Dor – 16 anos de Saudade da minha avó

Dança, partilha, Aceita a Tua Dor – 16 anos de Saudade da minha avó

Já várias vezes escrevi que alguém que me marcou muito pelo carácter, força, energia, empatia era a minha avó Materna.

Não sei se acontece o mesmo contigo mas quando existe alguém que nós marca de forma tão forte, o nosso pensamento vagueia diariamente sobre o que essa pessoa é na nossa vida. Digo é, porque mesmo com a ausência física, muitas vezes dou por mim “a conversar com ela nos meus pensamentos” e nos meus sonhos.
Quando era criança vivi grande parte do meu tempo com os meus avós e tios uma vez que os meus pais eram imigrantes.
A minha avó era massagista e havia uma admiração enorme minha por ela, sabem aquelas mulheres que têm sempre dois ou três ouvidos para escutar a dor do outro?
Lembro-me como se fosse hoje duas crianças que muito pequenas perderam os pais por doença, a compaixão com que a minha avó falava deles enchia-me o coração. Durante muito tempo, aquelas crianças iam ao “consultório” procurar uma palavra de afecto, um olhar de amor. 
Eu muitas vezes, ainda pequena pensava, quando for grande quero ser assim como ela.
Hoje ao acordar dei por mim a pensar no simbolismo do dia 11 de Novembro, à 16 anos atrás tinha eu 15 anos, a minha avó suicidou-se. Depois de uma semana de grande preocupação da minha família pelo estado de saúde da minha avó ela morreu. A minha avó andava “baralhada” o discurso não era fluido, começou a ter preocupações com situações totalmente fora do comum, não dormia e a ida ao psiquiatra foi inevitável. Na noite de sábado para domingo (celebração familiar de São Martinho) eu e a minha prima decidimos ficar na casa dos nossos avós devido ao estado de saúde da minha avó.
Mesmo com a medicação, a minha avó não estava a conseguir dormir e passou a noite a “mexer em gavetas” até que encontrou um liquido, que estava escondido para as crianças não mexerem porque a sua ingestão é “fatal” e assim foi, depois de ligar a luz do quarto onde estava com a minha prima a minha avó ingeriu e morreu nos meus braços.
Estive anos e anos a negar esta dor, logo no dia a seguir à sua morte fui para a escola e de forma incrédula uma colega perguntou-me como estava. Nos meios pequenos é comum qualquer tipo de acontecimento “toda a gente” saber, omiti da minha turma o que se passou e de grande parte das pessoas para que não “pudesse” falar do assunto. A minha prima que estava comigo começou a ser seguida por um psicólogo e eu continuava com a minha postura de “fugitiva”.

“Não falo sobre o assunto, fica guardado dentro de mim, era a minha missão”.
O que mais aprendi sobre os anos que ia guardado esta história era que a medida que guardava parece que o sufoco e a dor aumentava. Tive pesadelos durante anos, acordava com suores frios e tinha na minha mente vezes sem conta a imagem “final”. 
Comecei a desenvolver uma espécie de “culpa”, porque podia ter evitado aquele final;
Culpei o médico, porque ele não fez o encaminhamento correcto;
Procurei saber quem era o médico e um dia cruzei-me com ele, embora não fosse capaz de dizer nem uma palavra. 
Nos atendimentos que fazia como Educadora Social, cruzei-me com várias histórias de suicídio, assim que terminava ia para a casa de banho vomitar de angustia. 
Depois de tanta dor, decidi que a melhor forma de não crescer era aceitar, mas sozinha não estava a conseguir, fiz psicoterapia, fui acompanhada por um especialista de distúrbios alimentares porque criei uma obsessão sobre a “elegância” com uma ausência de auto-estima “enorme”. 
Percebi que a forma como conseguia lidar com a dor era pelo “excesso de comida ou ausência total”.
Em termos familiares era ocultado muito bem, mas assim que comecei a trabalhar uma colega psicóloga percebeu que algo não estava bem e apresentou-me uma organização que se chamava “com medida”. 
Entre consultas, planos alimentares, muita literatura, em 2013 fui experimentar uma aula de Biodanza e assim que terminou a aula senti que era ali o caminho. 
Não estou de todo a menosprezar todo o processo de acompanhamento que fiz, mas desde criança sempre gostei muito de dançar e dos 15 anos até aos 18 fiz dança contemporânea. Assim que comecei a Biodanza foi um resgatar de emoções positivas que a cada aula que faço tenho mais vontade de voltar. Sou uma apaixonada pela Biodanza e percebi que a dança conseguia transmutar a dor e o vazio que sinto em momentos de dor. 
Nestes anos todos li vários livros de auto-ajuda o próprio coaching foi descoberto numa tentativa de eu me sentir bem, acredito que existem várias formas de conseguirmos aceitar as nossas “dores”, mas para ti que estás a ler este texto e vives um momento de dor profunda a minha sugestão é “partilhares”.
Quando refiro que deves partilhar a tua dor passa por não “fechares” a sete chaves à espera que o tempo vai “esquecer” no meu caso teve tendência a piorar. Hoje em dia felizmente existem várias abordagens de cura, que podem ser excelentes catalisadores/potenciadores para o teu bem-estar, saúde.
Nunca pensei no dia 11 de Novembro conseguir, partilhar assim de forma tão apaziguadora esta minha história, mas acreditem no meio do caos, da fúria, da culpa, existe sempre um ombro, um abraço que ao longo do tempo são excelentes curativos da alma.  
Dança, partilha, Aceita a Tua Dor

Um abraço Flávia

Ps. Avó :)) continua aqui no meu coração e obrigada por ser um Exemplo muito forte na minha vida, um beijo daqui ate ao “céu”. 

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