Perdoar o Imperdoável

Perdoar o Imperdoável

Quando trabalhei como Educadora Social conheci histórias de vida extremamente duras um dia estava a dar um workshop para Mulheres sobre Liderança Pessoal (Auto-Estima, Auto-Confiança) e no fim uma mulher veio ter comigo com um ar muito triste.
Não consigo descrever tamanha tristeza que vi na cara da Luísa, sempre a conheci como uma mulher tímida e de poucas palavras, senti alguma estranheza com a sua abordagem mas no dia seguinte foi ao meu gabinete para conversar.
A Luísa disse-me que o pai tinha abusado sexualmente dela todos os dias desde que tinha quatro anos. Aos 11, começou a sofrer de epilepsia, porque como afirmou, tinha de escapar ao abuso do pai. Em adulta, queria viver uma vida saudável, produtiva mas percebeu que não o podia fazer enquanto continuasse a “recordar” os terríveis actos que o pai tinha cometido contra ela. Luísa passou vários anos em terapia com um psicólogo, na esperança de que o tratamento a ajudasse a abandonar a dor e a zanga que a estavam a destruir e a tudo o que era importante para ela. Percebeu, contudo, que precisava de outros tipos de ajuda e de apoio para sair da “areia movediça” emocional em que se estava a afundar.
Não podemos levar uma vida “boa” e odiar ao mesmo tempo. Se não limparmos e neutralizamos o nosso negativismo, continuaremos a criar mais negativismo. Quero sublinhar que abandonar o ressentimento não significa aceitar o mal que nos fizeram: significa ficar livre dele. Sentimentos dolorosos e energia negativa podem servir como catalisadores de mudança. A vida pode tornar-se tão insuportável que a nossa única escolha é mudar ou sofrer. Quando conheci a Luísa, ela já se tinha livrado de muito ódio e desprezo e estava preparada para abandonar o ressentimento que ainda restava. Estava à beira de ficar livre.
A história da Luísa causou-me um tal mal estar que a conto nos meus semanários e sessões. Se ela, que viveu o pior tipo de abuso e injustiça imagináveis, conseguiu perdoar o pai, então nos somos capazes de perdoar situações menos graves.
Perante esta história muitos perguntam porque é que a Luísa deve perdoar o pai, quando ele estava errado e ela era inocente e vulnerável. Respondo que a perdoar era a única maneira de Luísa ser realmente feliz. Sem abandonar a dor e a zanga do passado, sem sentir totalmente e sem assimilar  aqueles sentimentos, teria vivido no desespero. Quem não consegue compreender esta relação pode passar a vida inteira preso ao passado.
Mais uma vez, perdoar não aceitar o mal que foi feito. É crucial compreender a diferença, para poder trabalhar a dor, para ficar livre e continuar a viver.
Precisamos compreender, contudo, que só podemos perdoar em nosso nome e que não nos podemos colocar no lugar de outra pessoa. Temos de respeitar aqueles que são incapazes de abandonar o ressentimento. É um processo que leva o seu tempo e, para algumas pessoas uma vida inteira pode não ser suficiente.
As consequências das nossas escolhas reflectem-se na maneira como vivemos Nós somos o resultado dessas escolhas. Os outros não as fazem por nós, a menos que as deixemos fazer. Não escolher é também uma escolha, talvez a mais perigosa de todas.

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