Amar é dar atenção à nossa maneira de tratar o outro

Amar é dar atenção à nossa maneira de tratar o outro

Tal como no Principezinho, o amor implica a responsabilidade. A raposa explica ao Principezinho, aprisionar é criar laços, e “tu ficas responsável por todo o sempre por aquilo que aprisionaste.
Responsável? A palavra deriva do latim respons, que significa responder por. Amar é responder pela relação. Mais concretamente, significa estar atento às necessidades psíquicas do outro. Não tomá-las a nosso cargo, mas respeitá-las, ouvi-las e dar-lhes resposta. Amar é dar atenção à nossa maneira de tratar o outro. A comunicação e a escuta mútua são condições necessárias para a eclosão e sobretudo a manutenção de um amor autêntico. O amor não se pode dissociar do respeito. Não é compatível com a humilhação. Lembro-me de ter ficado profundamente chocada com a atitude de um homem em relação à mulher, durante uma refeição. À frente de toda a gente, chamou-lhe “parvalhona”, depois “pobre idiota”. Quando lhe exprimi o meu mal-estar face à forma de insultar a mulher, respondeu-me que era afectuoso! Falava-lhe sempre assim e isso não queria dizer que não a amava… Na verdade, ele não a amava, mas ainda não o sabia. Tinha desejado esta mulher, tinha sentido uma certa forma de afecto, tinha-se habituado a viver com ela, ela era-lhe familiar.Mais tarde, apaixonou-se por outra mulher. Pela primeira vez na vida, aos sessenta e um anos, conheceu o amor. Os insultos em relação à mulher revelaram-se então pelo que eram, manifestações de frustração e de raiva.
A palavra respeito, derivou do latim respicere, que significa olhar. O respeito não é um dever moral, mas um movimento interior espontâneo que marca o amor. É a capacidade de ver a pessoa tal como ela é, é estar consciente da sua unidade, é desejar vê-la desenvolver-se segundo os próprios desejos e caminhos e não segundo os nossos projectos. Senão, já não é amor, é exploração. Podemos fazer projectos com os outros, não pelos outros. “Quero que ele jogue futebol, diz-me Jorge” a propósito do filho. “Ele não gosta, mas eu forço-o; gostava tanto de o ter feito com a idade dele”. O exemplo parece caricatural, mas no entanto é autêntico. Quantos pais querem assim o futuro dos filhos?

Num casal, as mesmas tendências de controlo sobre a vida do outro podem perfilar-se. Olga está cansada de viver fechada em casa, quer realizar-se socialmente entrar no mundo do trabalho… Os filhos têm cinco e nove anos. Mas João tem medo de vê-la emancipar-se. Tenta dissuadi-la para mantê-la ao seu serviço. Ela ocupa-se dele no plano material uma vez que assegura a totalidade da carga doméstica, mas também, e provavelmente sobretudo, está ao serviço das suas necessidades afectivas. Enquanto Olga for dependente dele economicamente, João pode “permitir-se depender dela emocionalmente. 
No casamento de Pedro e Marisa, é ela que trava. Ele gostaria de montar a sua empresa, ela persuade-o a manter-se na função pública. Ela põe à frente de tudo a segurança financeira, além disso, tem medo que ele ganhe demasiada autonomia e confiança nele próprio…Porquê? Ela estima-se tão pouco que a perspectiva de ver o marido crescer sem ela aterroziza-a. Tem medo de já não se manter à sua altura. Enquanto tivermos necessidade do outro para preencher os nossos vazios, aquilo a que chamamos amor é um jogo de palavras . Amar é abrir-se à realidade do outro, tal como ele é, sem procurar caminho, mesmo que não seja o nosso, respeitando e exprimindo as nossas próprias necessidades bem entendido. 
A gratidão é também uma faceta incontornável do amor verdadeiro. Tal como o respeito, também não é um dever moral mas um impulso saído do interior. Quando estamos felizes com alguém, sentimos gratidão por essa pessoa. Não tanto por tal gesto ou tal palavra, mas simplesmente por ela existir e nos permitir viver toda essa felicidade.

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